domingo, 29 de novembro de 2009

grande cecilia meireles

Vimos a Lua nascer, na tarde clara.

Orvalhavam diamantes, as tranças das ondas
e as janelas abriam-se para florestas cheias de cigarras.

Vimos também a nuvem nascer no fim do oeste.
Ninguém lhe dava importância.
Parece uma pena solta - diziam.
Uma flor desfolhada.

Vimos a lua nascer, na tarde clara.
Subia com seu diadema transparente,
vagarosa, suportando tanta glória.

Mas a nuvem pequena corria veloz pelo céu.
Reuniu exércitos de de lã parda,
levantou por todos os lados o alvoroto da sombra.

Quando quisemos outra vez luar,
ouvimos a chuva precipitar-se nas vidraças,
e a floresta debater-se com o vento.

Por detrás das nuvens, porém,
sabíamos que durava, gloriosa e intacta, a lua.

Cecília Meireles

domingo, 18 de outubro de 2009

Leia o texto abaixo e depois leia de baixo para cima"

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

sábado, 3 de outubro de 2009

noites loucas

Emily Dickison
tradução de Arlindo Correia

Noites loucas! Noites loucas!
Sozinha contigo
Tais noites seriam
O nosso aconchego!

Inócuos – os Ventos –
Dentro do porto –
Fora a Bitácula –
Fora com os Mapas!

Remando no Éden –
Ah! O mar!
Se esta Noite – em Ti –
Eu pudesse ancorar!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

lya luft


Convite

Lya Luft
Não sou a areia
onde se desenha um par de asa
sou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.

cecilia meireles

Serenata
"Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o
meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo"

Cecília Meireles

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

cecilia meireles...

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar; -
depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo meu sonho,
dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo e
o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.